Dec 13, 2023

Stone Butch Blues


Um fragmento para Identidades e Interseções. Originalmente em inglês.

“Como você está hoje?”, pergunto a J. enquanto nos sentamos para almoçar.

“Estressado.”

“O que houve?”

“O garoto da semana. Eu gosto muito dele.”

“Ok, qual o problema então?”

“O garoto recorrente. O crush recorrente me chamou pra sair.”

“Você está dividido entre o garoto da semana e o garoto recorrente?”

“O garoto da semana é super fofo, mas ele prefere mulheres. E o garoto recorrente canta super bem.”

“Eu digo pra você sair com os dois e largar o primeiro que desandar.”

“Carolina, você devia beber comigo e com o H. na sexta. Da última vez, eu e o H. ficamos muito loucos.”

“Você e o H. já…”

“Não. O H. é muito feminino pra mim. Eu gosto de caras mais masculinos.”

”…”

“Tenho tanta lição de casa. E peguei um resfriado, então minha voz não está a mesma, o que significa que não consigo cantar Hey Jude pro meu projeto fina—”

“J., você não acha estranho? Como mesmo dentro das comunidades gays vocês se dividem em binários?”

”…”

”…”

“Acho que é porque está enraizado em nossos cérebros pela sociedade em que vivemos.”

“Você acha?”

“Eu acho.”

”…”

”…”

“Eu não sei… algo ainda me incomoda em transformar a comunidade em uma cópia da comunidade que te rejeitou em primeiro lugar.”

Acho que nunca pensei no H. como “feminino”. Com o J. apontando isso, consigo reconhecer como alguns traços do H. não se encaixam no que é convencionalmente considerado “masculino”. Mas nunca senti necessidade de categorizá-lo. Parece injusto reduzir o H. a uma palavra. Parece injusto rejeitar o H. imediatamente só porque ele está um pouco longe do ponto ideal do J. na escala de apresentação de gênero. Me irrita pensar que alguém poderia estar dizendo algo parecido sobre mim. Que alguém poderia estar me reduzindo a uma de duas palavras. Que alguém poderia tentar capturar minha essência com um sistema tão limitado e me tirar todas as coisas que me individualizam.

Chego em casa e, depois de pintar as unhas, mando mensagem para minha amiga: “Annabel, você me ensinaria a usar maquiagem?”

* * *

“Shruti, a Annabel me deu maquiagem.”

“Você vai começar a usar maquiagem?”

“Quero ver o que me faz sentir confortável. Quero usar num dia, e depois não usar no outro. Quero que as pessoas fiquem confusas sobre qual versão de mim elas vão ver a cada dia.”

“Sabia que eu já tive um sidecut? Meu pai ficou muito bravo. Ele disse que ninguém se interessaria por mim.”

“E alguém se interessou por você?”

“As pessoas… te tratam diferente.”

“Como assim?”

“Os homens não te ajudam a carregar as malas para fora do trem.”

“Você ficou invisível de repente?”

“Não, eles me veem. Eles simplesmente me respeitam mais. Até no trabalho me sinto tratada com mais profissionalismo. É divertido. Escolher como se apresentar todo dia.”

“Shruti?”

“Sim?”

“No mundo ideal, todos seríamos não-binários.”

“Sim.”

“Mas, dado como o mundo é, eu sou uma mulher.”

“Ok.”

“Mas eu sou minha própria expressão de feminilidade. Sempre fui.”

“Sim, você é Carol.”

“Você me vê dessa forma também?”

“Acho que você consegue segurar qualquer visual que quiser. Você é a Carol.”

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