Jan 7, 2026

Seringueiro, eu não sei nada


Sobre a individualidade, com Mário de Andrade e Arthur Nascimento. Originalmente em português.

aza toca.

Ontem fui ao Ibirapuera com o Arthur. Nós nos lembramos do nosso pacto de casar-nos quando eu tiver 40, e ele, 50. Eu reparei que o pacto antigo era quando eu tinha 30, e ele, 40.

Discutimos o nome dos nossos futuros filhos. Talvez Natália e Henrique, porque eu logo rechacei o “Yasmin” que ele sugeriu. Eu acho que a Natália é a mais velha, mas o Arthur acha que é o Henrique.

Arthur quer morar em Curitiba ou Florianópolis. Eu sugeri Salvador, apesar de nunca ter ido. Eu perguntei pra ele o que faríamos sobre as crianças não estudarem numa escola de capital grande, se elas estariam perdendo oportunidades. Ele acha que, se a gente se esforçar, a gente consegue ensinar em casa, estimulando a curiosidade delas. Será que a gente precisava ter vivido num ritmo tão frenético pra chegar onde a gente chegou hoje?

“A gente consegue ensinar em casa sim. Você é o Arthur, você é uma celebridade. Eu ouvia falar de você quando era criança. Dizem que a gente não deve conhecer nossos ídolos, né? Eu te conheci e virei fã maior ainda.”

Eu tive a leve suspeita de que talvez o Arthur se esforçasse no começo, mas, quando decidisse que não queria mais, ele seria um pai ausente. Ele negou. Talvez eu não conheça esse aspecto dele.

Perguntei pra ele se a gente se casaria na igreja. Ele disse que não. Também perguntei quais histórias a gente ia inventar. Nós sentaríamos juntos e ensaiaríamos nossas histórias pré-casamento. Talvez ele tivesse me traído, e eu o tivesse perdoado. Talvez eu tivesse trancado a faculdade depois do ultimato que ele me daria: “ou você volta pro Brasil ou você pode me esquecer!”.

“Arthur, você acha que as pessoas vão sentir algo de estranho no nosso casamento?”

“Não, o que tem de errado com o nosso casamento?”

Falei pra ele que eu trabalharia alguns anos nos Estados Unidos, investiria em previdência privada, e nós viveríamos bem, sem ter que trabalhar muito. Nós teríamos muitos amigos, ele disse, e daríamos muitas festas. Nossos amigos seriam muito excêntricos. Eu também acho que nossos filhos seriam muito bonitos.

* * *

Fiquei presa na primeira fase do Romantismo, quero dizer à minha terapeuta.

Quero cantar e não posso,

Quero sentir e não sinto

A palavra brasileira

Que faça você dormir…

Seringueiro, dorme…

“Por que é tão importante pra você construir esse senso de identidade?”, ela pergunta.

Tanta coisa passa pela minha cabeça. Tanta coisa que eu sei que eu preciso discutir com ela, mas não quero que ela saiba ou não quero que eu saiba. Ela acha que minha identidade está em conversar com as pessoas. Em ser uma mente aberta.

“Você não faz parte de uma torcida organizada. Você tem medo de ser desenraizada, mas você tem, de fato, alguma raiz?”

Seringueiro, seringueiro,

Queria enxergar você…

“Pessoas profundas buscam pessoas profundas”, independente da raiz, eu sei que ela quer acrescentar. Mas ela sabe quem é o Arthur? Eu a compreendo? Ela me compreende?

Acho que ela quer me dizer… Minha raiz é não ter raiz. É em se reinventar com cada pessoa, cada diálogo.

“Ficar introspectiva assim te traz tristeza?”, ela pergunta.

Eu respondo que tento entender a realidade, e a realidade por vezes é invariavelmente triste. Ela me conta sobre como a maternidade lhe deu um sentimento de pertencimento, como lhe removeu o vazio interno. Não quero ser assim com a Natália ou o Henrique.

“Você tem um vazio dentro de si, que ter identidade preenche?”, ela pergunta.

Eu divago sobre minha individualidade. Conheço pessoas que eu nem sei que língua falam. Conheço há anos uma mulher moldava, mas não lembro a capital de seu país não importa quantas vezes ela me conte. Alguém que não eu vai se importar com a minha individualidade?

“Eu preciso aprender a ser a única pessoa a entender todas as faces da minha individualidade”, eu digo. Eu não vou casar com o Arthur, é o que ela quer dizer, mas minha casa está nos nossos planos de casar-nos um dia. Está em todas as vezes que o Arthur me fez questionar a realidade quando eu tinha 14 anos. Em todas as perspectivas do ser mulher que ele disse que nunca entenderia se não tivesse me conhecido. Em todas as vezes que o Ygor me mostrou que há tantas lutas que eu não vivo mas poderia viver. Em todas as vezes que eu mostrei ao Ygor as hipocrisias de suas crenças. Em todas as vezes que a Shruti viveu por mim e me trouxe seus ensinamentos. Em todas as vezes que eu lhe ensinei sobre ser estrangeira em seu próprio país.

Seringueiro, eu não sei nada!

Não sei, e devo saber, ou me ensinar a resistir ao desejo de construir uma identidade pra conhecer? Ela concorda que estou presa no Romantismo, não no Modernismo.

Porém eu sou amigo

Conhecer-me é te conhecer também.

E quero ver se consigo

Não passar na sua vida

Numa indiferença enorme.

E um dia eu vou te adicionar à minha identidade.

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