Dec 14, 2022

Água viva


Minhas anotações distraídas sobre o livro de Clarice Lispector. Originalmente em português.

“Viver essa vida é mais um lembrar-se indireto dela do que um viver direto.”

Clarice faz uma analogia com uma convalescença gentil, uma convalescença de um “prazer frígido”. Tentei interpretar “prazer frígido” e cheguei à conclusão que talvez ela fale de uma atividade sexual pouco prazerosa. Porque, quando você chega no clímax, esse clímax é fraco, e sua recuperação acaba sendo menos violenta. Essa é minha teoria. Penso na analogia da convalescença porque, quando você se recupera de uma doença, ainda está doente, mas cada segundo que passa você está menos doente que antes e só consegue medir sua recuperação ao lembrar de como você se sentia uns tempos atrás em relação a agora. Talvez essa seja a noção de instante-já nesta reflexão.

“Será que não sei mais do que estou falando e que tudo me escapou sem eu sentir? Sei sim — mas com muito cuidado porque senão por um triz não sei mais.”

Ressoa comigo. Acredito que ela se refira à sua abstração. Está abstraindo tanto, que podemos chegar a pensar que ela mesma não faz sentido de suas palavras. Mentira. Ela está em total controle do que diz e está se expressando exatamente como deseja. No entanto, está se aproximando da pura incompreensão e a qualquer momento pode perder a expressividade.

“Só não te contaria agora uma história porque no caso seria prostituição. E não escrevo para te agradar. Principalmente a mim mesma. Tenho que seguir a linha pura e manter não contaminado o meu it. Agora te escreverei tudo o que me vier à mente com o menor policiamento possível. É que me sinto atraída pelo desconhecido. Mas enquanto eu tiver a mim não estarei só. Vai começar: vou pegar o presente em cada frase que morre.”

Separar a autora da narradora, mas não sei se é sábio fazer isso com Clarice. Não sei se leio os pensamentos da narradora ou de Clarice neste excerto. Acho bonito como ela venera a intimidade ─ há coisas que ela não vai contar a ninguém porque não quer agradar a ninguém. Sua intimidade, seu tempo consigo mesma, parece-me que é o que há de mais valioso para Clarice. Ela entende sua própria intimidade quando apenas captura o instante-já em um fluxo de consciência. Não escreve bonito. Não escreve inteligivelmente. Ela escreve para ela mesma. Não se prostitui.

“Tudo ganha uma espécie de nimbo que não é imaginário: vem do esplendor da irradiação matemática das coisas e da lembrança de pessoas. Passa-se a sentir que tudo o que existe respira e exala um finíssimo resplendor de energia. A verdade do mundo, porém, é impalpável.”

As palavras-chave “matemática, “tudo o que existe”, “respira e exala e energia” me fazem pensar que ela finalmente descreve o mundo de uma forma… palpável. E ela precisa me avisar: a verdade do mundo não é palpável. Não se iluda.

O que eu gostei é que você não precisa ter uma big picture. As coisas só acontecem e você vai acompanhando elas agora. Não volte. Clarice não volta. Clarice pode retomar uma analogia mas ela irá fazê-lo de uma maneira diferente. Sua mente não é uma caixa organizada onde você precisa pensar racionalmente e entender a sequência temporal das coisas. Continue lendo. Faça sentido das palavras que você lê agora. Seja um crítico espontâneo.

“Aliás não quero morrer. Recuso-me contra ‘Deus’. Vamos não morrer como desafio? Não vou morrer, ouviu, Deus? Não tenho coragem, ouviu? Não me mate, ouviu? Porque é uma infâmia nascer para morrer não se sabe quando nem onde. Vou ficar muito alegre, ouviu? Como resposta, como insulto. Uma coisa eu garanto: nós não somos culpados. E preciso entender enquanto estou viva, ouviu? porque depois será tarde demais.”

Outro tema importante: o limite das palavras. O pensamento primário. A pintura. Era Clarice Lispector pintora? A selva. A liberdade. A materialidade do corpo e do espírito. Clarice escreve de maneira pura e sem rodeios: não quer perder o tempo com “missões”. Quer viver. Quer gozar da glória de cair.

“Eu não tenho enredo de vida? sou inopinadamente fragmentária. Sou aos poucos. Minha história é viver. E não tenho medo do fracasso. Que o fracasso me aniquile, quero a glória de cair.”

Não se mistura autor e obra, mas sinto que li Clarice. Fiquei curiosa sobre o que ela pensa do amor. Fiquei curiosa para saber quão necessária Clarice pensava que é a interação interpessoal. Sua mentalidade parece ser que o mundo íntimo é o sentido da vida. Pergunto-me quão independente isso a tornava.

Às vezes acho que Clarice Lispector não escreve realmente sobre o amor. “Eu sou antes, eu sou quase, eu sou nunca. E tudo isso ganhei ao deixar de te amar.”

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